” Richard se fora. Penelope aprendeu a viver sem ele, porque não havia alternativa. É impossível dizer-se ‘não posso suportar isso’, porque, quando não suportamos a situação, a única outra coisa a fazer é parar o mundo e desembarcar dele, porém não existe qualquer maneira prática de se fazer tal coisa.”

(…)

“Importa apenas que fiquemos juntos e que eventualmente nos casemos – segundo espero, o mais cedo possível. Um dia, a guerra terminará. Serei desmobilizado e retornarei a vida civil, com agradecimentos e uma pequena indenização. Você pode encarar a perspectiva de ser esposa de um professor? Porque isto é tudo quanto quero ser. Não sei dizer para onde iremos, onde viveremos e como será, mas se me couber alguma escolha, eu gostaria de voltar para o Norte, a fim de ficar perto dos Lagos e das montanhas do distrito de Peak.

Sei que isso parece muito distante. Há uma difícil estrada à frente, pontilhada de obstáculos que deverão ser transpostos, um por um. Entretanto, viagens de mil quilômetros começam com o primeiro passo e, quanto pensamos um pouco, nenhuma expedição é a pior.

Ao reler o que escrevi, esta me parece a carta de um homem feliz, que espera viver para sempre. Por algum motivo, tenho esperanças de sobreviver à guerra. A morte, o último inimigo, ainda me parece muito longe, além da velhice e da enfermidade. Por outro lado, não é possível acreditar que o destino, após ter-nos reunido, não queira que continuemos assim.”  (Carta de Richard à Penelope)

(…)

” Recordo-o sorrindo e percebeu que o tempo, aquele grande e velho curador, finalmente cumprira sua tarefa. Agora, através dos anos, a face do amor não mais despertava agonias de pesar e amargura. Ao contrário, o sentimento que restava era simplismente de gratidão. Porque sem Richard para recordar, o passado seria indescritivelmente vazio. Era melhor ter amado e perdido, ela disse para si mesma, do que jamais ter amado. E Penelope sabia que isto era verdade.”

* Rosamunde Pilcher In: Os catadores de conchas *

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