Hoje foi meu aniversário… mais um! Esse dia teria tudo para ser como qualquer outro dia, mas engraçado, não foi! Fiquei me perguntando então, o que o fez ficar especial??? O que faz os aniversários serem especiais?

O dia foi ensolarado, lindo! Parece que tudo sorria para mim… mas não foi só por isso que foi especial. Nem tão pouco porque foi o meu aniversário, embora esse tenha sido o motivo para tantas mensagens, telefonemas, presentes, surpresa…

Ele foi especial porque as pessoas ao meu redor o deixaram assim!

A caminho do trabalho hoje me lembrei de um senhor, sim… um senhorzinho, ele tem noventa e seis anos, infelizmente pouco sei sobre ele, nem mesmo seu nome. Soube da idade por acaso. Em janeiro nas minhas férias, numa tarde, saí de casa, sozinha! Peguei o ônibus e fui para o centro da cidade, adorooo andar no centro da minha cidade – não tem nada demais, é bem pequeno, mas depois que saí de lá… aprecio andar para lá e para cá, sem rumo. Encontrando rostos conhecidos, lugares familiares… lembranças!

Como sempre faço, parei numa sorveteria… estava lá tranquila, saboreando o meu sorvete quando observei um senhorzinho de moletas se aproximando de uma das mesas que estavam vagas junto a uma senhora de uns cinquenta anos. Enquanto ela foi fazer o pedido ele tentava se acomodar, apoiou a moleta na cadeira, mas ela insistia em não ficar quieta… com dificuldade ele a encostou novamente. Afastou a mesa e apoiou os braços na cadeira de plástico… mas a moleta caiu antes que ele pudesse se sentar!

Havia algumas pessoas do lado, mas nínguem o ajudava. Quando percebi já estava segurando a moleta e a cadeira para que se sentasse com segurança… a impressão que dava era que a qualquer momento ele caíria, não que ele fosse pesado, não, era magro, seu corpo era frágil mas a cadeira parecia que viraria a qualquer movimento em falso que ele fizesse.

Ele me olhou, sorriu e disse “Muito obrigada minha filha”… eu sorri, e disse que não precisava agradecer e que tinha sido um prazer ser útil. Na verdade o seu sorriso e o seu olhar – olhos azuis feito o céu – já tinham me transmitido isso, realmente as palavras eram desnecessárias.

De repente, seu rosto se fez triste e seu olhar, não sei, estava longe como se procura-se e não encontra-se. Não sabia o que essa expressão queria dizer, foi necessário que ele dissesse: “Eu já tenho noventa e seis anos”. Eu o felicitei, disse que ele estava muito bem e que deveria ter vivido muitas coisas, conhecido muitas pessoas… enfim que isso era muito bom e que deveria ficar orgulhoso por viver tantos anos, que era uma dádiva! Falava sem parar, coisas que eu nem me recordo agora, mas queria que ele sorrisse de novo… era só isso que eu queria. Queria afastar aquela tristeza que momentaneamente o dominava.

Ele me disse “Minha filha, você não entende e é jovem ainda, não a culpo… eu já conheci muita gente, mas já perdi muitas. De que me adianta estar bem, lúcido… já perdi minha esposa, dois filhos e todos os meus amigos. Não me restaram amigos, eles se foram, todos!”

Fiquei calada, não sabia o que dizer… que poderia eu dizer??

Nesse momento a senhora se aproximava e oferecia o sorvete carinhosamente para ele. Sua expressão foi mudando e ele voltou a sorrir, talvez porque não estivesse sozinho! Alguém ainda se importava com ele, estava ao seu lado e o tinha levado para tomar sorvete!

Ao vê-lo sorrir de novo me despedi e ele agradeceu novamente. Voltei para a mesa aonde estava sentada e continuei observando, eles conversavam e se deliciavam com o sorvete!

Naquele dia entedi que, embora a vida continue e seja uma dádiva, ela não tem tanta importância se não estamos e se não tivermos uma família e amigos com quem se possa compartilhar. Fiquei feliz por ele estar acompanhado… e hoje me lembrei dele novamente. Talvez porque o aniversário foi um momento em que eu tenha compartilhado, de perto ou de longe mais um ano de vida… mas acima de tudo porque a minha vida sem essas pessoas não seria completa.

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